Eloy Fonseca

Há sempre algo de ausente que me atormenta. (CamilleClaudel)

Textos

Revenge em Maceió
Ah! Quanta beleza foi necessária para montar o litoral desta capital! Fã? Não, acho que não, apenas um admirador. Seria fã se acaso os políticos locais tivessem um mínimo de educação ambiental e dotassem a cidade de um saneamento básico, ou seja, deixassem de despejar lixo no mar. É triste andar pelas praias e tropeçar em lixo humano.
Em que pese as imagens que guardo de praias lindas como as paulistas Boi Sucanga e Pernambuco ou as Joaquinas em Florianópolis ou mesmo as famosas do Rio de Janeiro e outras espalhadas pelo Brasil, o meu xodó, aquela em que me sinto integrado é aqui em Maceió, precisamente em uma cidade periférica, Marechal Deodoro, a praia do Francês.
Contaminei muita gente com a minha admiração por este pedaço de paraíso.  A maior vítima foi a Andréa, minha paixão desde o primeiro ano de faculdade. As folgas que a Universidade de Brasília nos dava, feriados, greves, recessos ou férias, já encontravam nossas mochilas prontas. Quando eram poucos dias buscávamos os diferentes estilos da arquitetura do país. Gramado, São Borja, Parati, o Pelourinho de Salvador, os arranha-céus de São Paulo, as palafitas na Amazônia e até mesmo os barracos dos assentamentos e invasões que serviam de colar aos palácios de Brasília. Folgas que ultrapassavam uma semana eram reservadas às areias que se estendem entre a praia do Francês e a Barra de São Miguel, de um lado o mar azul e do outro o verde do coqueiral.
Foi neste coqueiral, ouvindo o som do quebrar das ondas do pedaço de mar mais colorido do Brasil que nossas vidas mudaram.
Final de ano, final de curso, inicio de uma nova vida cheia de projetos e sonhos, porém antes da assumir qualquer compromisso profissional resolvemos voltar ao nosso paraíso. A rotina era correr por dois minutos pegar uma onda e correr mais dois minutos. Assim íamos até à Barra todos os dias pela manhã. Foi durante esta rotina, ao sairmos do mar que deparamos com uma arma apontada para nós. Em poucos minutos eu estava amarrado em um daqueles coqueiros, a cabeça sangrando em abundância. À minha frente a Andréa era espancada e estuprada em uma violência desmedida. Para encerrar atirou nela e depois em mim. Fui salvo por um pescador que ouviu os tiros e o bom trabalho de um cirurgião, mas quando saí do coma já havia perdido a missa de sétimo dia da Andréa.
Delegacia, retrato falado, cidadão identificado, reincidente e preso. Preso?! Ficou na cela menos dias do que eu fiquei no coma.
As feridas do corpo a natureza recompõe, quando não se está morto, mas as da alma ficam para sempre. Perdi a alegria de viver, mas o show tem que continuar, a vida não olha para trás. Esqueci que era graduado em arquitetura e virei piloto de táxi. Não era um táxi convencional, era um tipo de lotação feita com carro de passeio onde a tarifa era fixada em torno de um dólar por passageiro. Durante dois anos fiz aquele circuito Marechal/ Francês e Francês/Marechal. A minha mente era como o serviço, o mesmo círculo vicioso, revezava a imagem da Andréa e a daquele criminoso que ainda estava solto. A praia era a minha Andréa cheia de vida e as ruelas tortuosas e mal calçadas de Marechal Deodoro eram as fuças daquele energúmeno que ceifara um mundo de sonhos.
Um dia recebi dois reais e cinquenta centavos diretamente das mãos dele. Não me reconheceu. Eu também não me reconheceria. O osso da minha testa está deformado, por isso uso um boné constantemente, minha boca ficou torta devido a uma semiparalisia nos músculos da face esquerda, que tento esconder com uma barba.
Os pesadelos voltaram com força total. Aparentemente todos os neurônios ativados durante a faculdade haviam acordado e faziam uma tempestade dentro do meu crânio. Seguindo os instintos comprei uma arma. Dias mais tarde um rolo de fita adesiva. Depois um quilo de gesso. Esperar, esperar... mas os neurônios não se acalmavam. Comprei um saco de confeiteiro. Esperar... esperar...
Um dia pela manhã, meses depois ele reapareceu.
- Toca para S. Miguel.
Era fora da minha rota, virava uma corrida exclusiva. Ditei o preço. A meio caminho ele pagou e desceu. Segui em frente. Fui até à Barra de São Miguel. Parei em um posto de combustível, mandei trocar o óleo e lavar o carro. Tirei as sacolas de mercado com minhas compras, que estavam no porta-malas e saí à francesa pelo fundo do posto em direção à praia. Deixei a roupa sobre a areia e dividindo o peso das sacolas entre as mãos empreendi uma corrida acelerada até o ponto onde eu julgava que ele estaria. Sentado na areia e ao sol. Mesmo estando de tocaia, surpreendeu-se quando viu um banhista enfiando um trabuco na cara dele. O caçador trocava de papel.
- Tire a roupa. – ordenei.
Gaguejou e completei as instruções.
- Dia da caça. Tire bem devagar, pois sei que você está armado.
Despiu-se, e depois, nu e de quatro engatinhou de volta aos coqueiros. Devolvi a coronhada de anos atrás e no desmaio gastei o rolo de fita e a corda que estava com ele. Não daria chance. Uma alça das mãos ao pescoço que o estrangularia e outra dos testículos aos pés que o castraria se fizesse força. Voltei ao mar, enchi uma das sacolas de água. Fiz um mingau com o gesso e com o saco de confeiteiro enchi-lhe as tripas. Quando começou a regurgitar usei a arma dele como rolha. Não sei se devido à rolha ou pelo aquecimento do gesso ao endurecer, acordou, tentou se mexer e sentiu que ficava pior, choramingou, mas as dez voltas de fita adesiva cobrindo a boca não o ajudava.
Aguardei mais uns dez minutos, tempo suficiente para o gesso endurecer e fixar a rolha. Juntei as sacolinhas que serviram de balde e luva e voltei ao mar, deixando-o nas mãos de Deus, que no momento estavam materializadas em um coqueiro morto, caído e quase podre. Um banho nas sacolas e na alma. Livre da arma, saí mais leve. Minhas roupas, uma água de coco e o carro quase pronto. A vida segue arquitetando nossas dores, na impossibilidade, maus odores.
Por falar nisto, a arquitetura das barracas destas praias é bem interessante.
Eloy Fonseca
Enviado por Eloy Fonseca em 08/09/2013
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